16.12.04

 

A Perversão do Ensino

Saiu hoje no Público mais um excelente artigo da Prof.ª Fátima Bonifácio intitulado, apropriadamente, O Retorno da Desigualdade.

Já em Agosto deste ano, a autora do presente artigo nos tinha agradavelmente surpreendido com outro oportuno texto sobre o mesmo tema.

Agora, Fátima Bonifácio reforça e confirma a impressão então causada com este novo contundente artigo que, não revelando opiniões absolutamente inéditas, vem dar, neste assunto, força social a um conjunto de percepções difusas, mas generalizadas, visto que todos aqueles que acompanharam, ainda que apenas como encarregados de educação de jovens em idade escolar, a questão do Ensino em Portugal se foram dando conta da sua perigosa degradação, apenas negada e justificada pelos preconceituosos ideólogos que encontraram acolhimento nas cidadelas do Ministério da Educação, de onde, nos últimos decénios, têm debitado as fantasiosas teorias e experiências educativas que são responsáveis pelo descalabro atingido, finalmente, não mais susceptível de ser iludido.

Há muito que estas ideias vinham sendo percebidas e veiculadas, em conversas privadas, por vezes, mesmo com receio, dada a coacção mental imposta pela demagogia reinante, mas, como tudo na vida, um dia acaba e hoje já não é possível esconder a realidade debaixo do turvo manto das pseudo-teorias pedagógicas supostamente modernas e criativas. O seu resultado, vê-se agora, é absolutamente devastador : produziu largos milhares de vítimas inocentes, que pouco ou nada aprenderam, mesmo quando saíram licenciados de certos cursos e Escolas ditas Superiores.

O actual ensino não prepara os jovens para a vida profissional, porque desprezou a formação técnica, nem os habilita a empreender estudos sérios, na Universidade, porque lhes não proporcionou a aquisição de noções e conceitos básicos de disciplinas e matérias fundamentais para a sua ulterior formação, como não os dotou de métodos e hábitos de trabalho indispensáveis a qualquer especialização futura.

E quanto a fomentar a justiça ou a igualdade social, está mais que provada a total incapacidade de este tipo de Ensino laxista o fazer, gerando exactamente o seu contrário. Outra coisa não seria de esperar, ao consentir-se na redução dos níveis de exigência, na lassidão, na indisciplina e, por fim, na ruína da Escola Pública, principal esteio, se não único, das pessoas com modestos rendimentos, que nunca poderão socorrer-se de alternativas de aprendizagem e formação, por inacessíveis ou demasiado dispendiosas.

Por sobre tudo isto, deixou também a Escola Pública e, neste campo, igualmente a Privada, de formar cidadãos de cultura portuguesa, que é hoje profundamente desconhecida da generalidade dos nossos jovens e menos jovens, iludidos numa pretendida pertença a uma cidadania europeia, que, na sua ingenuidade e ignorância, supõem daquela os dispensar.

Pode ser que artigos como este, se bem entendidos por largas camadas de nossos concidadãos, venham a desencadear um sentimento e um propósito correctivos do presente mal, capazes de promoverem o aparecimento de cidadãos conscientes e patriotas, em lugar de indivíduos de identidade cultural equivocada, superficial e com graves lacunas, que os converte em meras unidades de consumo de produtos, na maioria supérfluos e de produção alheia, desprovidos de consciência cívica.

Oxalá este e outros escritos semelhantes, de pessoas animadas das mesmas intenções, tenham essa virtude ; de contrário, continuaremos a caminhar no sentido do nosso progressivo empobrecimento colectivo, material como espiritual.

Não obstante os empolados casos de êxito individual, fortemente mediatizados, que nos levaram até a ter - hoje - um nosso compatriota à frente dos destinos da União Europeia e jogadores e Estádios de Futebol considerados dos melhores do Mundo, o País permanece na cauda da Europa dos 15 e, por este andar, rapidamente alcançará a mesma posição na dos 25.

É para esta realidade que o País terá de acordar, se verdadeiramente dela quiser sair, como entidade colectiva, porque, nos êxitos individuais, já atingimos a nossa pequena quota de vaidade.

AV_Lisboa, 16-12-2004

Comments:
António, estou aqui com um sorriso parvo nos lábios porque quando li o artigo da Fátima Bonifácio lembrei-me logo de si. Tinha quase a certeza que iria abordar a questão. E ainda bem que o faz.
CMF
 
A Profª Fátima Bonifácio bem que poderia vir aqui escrever uns artigos. Há alguns anos, li sobre a decadência geral do Ensino, inclusive na França, o que
me surpreendeu. Aqui, eu era testemunha da queda brutal. Até quando? Até quando pararão de discutir e começarão de fato a resolver o problema? E os professores, a meu ver, têm que ENSINAR MESMO, apesar dos baixos salários. Jamais dei aulas proporcionais ao que vinha publicado em meu contracheque. Ultimamente, não me prendia nem mais à série em que estava dando aula, via TUDO o que os alunos deixaram de aprender ao longo do tempo, naquilo que eu ensinava (Português e Francês) e começava lá, de onde eles não sabiam, ultrapassando até, se acompanhassem, o programa que eu deveria cumprir, pois sabia que, ao saírem dali, pouco lhes seria ensinado. Uma escola me chamou a atenção porque eu estava ensinando muito, acredita nisso? Perguntei se quando iam ao Médico também diziam para não lhes curar muito... QUE PENA! Poderia tudo ser tão simples!
ABRAÇOS,
Bisbilhoteira.
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